Colunistas devem usar IA em textos? Dentro de verbo ‘usar’ cabe muita coisa

Coluna de Carlos Affonso Souza no Uol Tilt.

publicado em

19 de fevereiro de 2026

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Um colunista discute se colunistas devem usar IA e diz que “usar” pode significar apoio à escrita, não terceirização do texto

Não importa se você é jornalista, advogado, médico ou programador: a pergunta sobre se você tem usado alguma ferramenta de IA nas suas atividades profissionais chegou para ficar. E a resposta varia bastante a depender do tipo de trabalho e das expectativas que as pessoas criam sobre as transformações proporcionadas pela IA.

O alvo da vez são os colunistas, a partir de uma discussão iniciada pela ombudsman da Folha de São Paulo.

Questionada por um leitor, ela inquiriu uma colunista do jornal sobre se os textos da autora estavam sendo feitos com IA, já que ao passar em alguns detectores a taxa de probabilidade de escrita automatizada parecia bastante elevada.

A colunista respondeu que usa ferramentas de IA como apoio, mas que “o conteúdo, a opinião, o ponto de vista, a vivência e a responsabilidade” seriam integralmente dela.

Em coluna dedicada à polêmica, a autora arremata que escolheu usar esses recursos para “proteger o que é mais precioso que qualquer debate moral vazio: o meu tempo”.

Deveriam colunistas usar IA para escrever seus textos? Talvez a pergunta certa não seja essa, já que dentro da expressão “usar” IA cabem muitas coisas.

Aqui vão algumas formas de usar a IA que me foram úteis na escrita de colunas desde o surgimento do ChatGPT:

– trocar ideias sobre os temas para ver se aparece algo que eu não tinha visto inicialmente

– pedir uma lista de referências literárias ou cinematográficas para ilustrar algum argumento

– ler dezenas de colunas anteriores e me voltar com uma análise sobre padrão de escrita e estruturação dos meus próprios textos

Tudo isso já me ajudou de alguma forma.

O que nunca funcionou para mim, pelo menos até agora, foi terceirizar a escrita propriamente dita.

Volta e meia faço um prompt longo dando a contextualização, a ordem dos argumentos e como gostaria de amarrar o texto. Dou uma olhada e acabo usando muito pouco.

O que já acabou entrando nas colunas são parágrafos mais descritivos aqui e ali, sempre revisados, claro. As opiniões, as rendições ao juridiquês e uma ou outra ironia, para o bem ou para o mal, são demasiadamente humanas.

Meu sentimento é que o texto produzido pela IA até funciona para outras finalidades —como na elaboração de documentos técnicos, que analisam um tema e sumarizam as principais questões— mas para o que se propõe uma coluna ele me soa sempre tendente aos lugares comuns.

Até aqui, no que realmente importa em um texto opinativo, eu estive com os dois pés dentro.

O debate proporcionado por essa polêmica é bom para refletirmos sobre dois pontos complexos relacionados ao futuro da escrita em um mundo repleto de ferramentas de IA.

O primeiro é a revelação —para o espanto de zero pessoas— que se o uso de IA no trabalho é visto pela lente do aumento da produtividade, gerando temores e maravilhamentos, no processo de escrita de uma coluna opinativa ele é visto com repulsa, como se os leitores estivessem sendo traídos.

Esse resultado parece estar ligado ao elemento que leitores procuram em uma coluna opinativa: a opinião do autor ou autora, devidamente envelopada com o seu estilo, suas referências, experiências e sensibilidade.

O segundo ponto está ligado ao processo de criação e aqui é preciso repetir o óbvio: escrever é pensar.

Nenhuma coluna nasce pronta, como Atenas da cabeça de Zeus. Ao longo da escrita se vai refletindo sobre as ideias e o texto toma corpo, sendo transformado na medida em que os parágrafos se encaixam.

Mesmo as colunas escritas no quente, mais curtinhas e para reagir ao noticiário do dia, passam por esse processo de faz e desfaz, volta, revisa e segue em frente.

Aqui não quero soar purista ou nostálgico pela figura do autor solitário.

Uso IA o dia todo para resumir textos, comparar documentos e saber que planta é essa que está nascendo no vaso da jabuticabeira.

O ponto é que parece existir algo de precioso na fricção entre ideia e linguagem, que diferencia a atividade de se ditar para a IA um texto e você mesmo ter que brigar nas fronteiras de cada linha por ele.

No final das contas, esse texto não vai envelhecer bem.

O avanço das IAs vai fazer com que elas sejam tratadas como um software de edição de texto, um Microsoft Word da vida. Mas salvo na época em que aparecia um clipe de papel animado no ambiente Word querendo ajudar, mas que acabava assustando as pessoas, o software pouco se meteu no processo de escrita em si.

Ele sempre foi uma ferramenta, não um coautor.

Essa parece ser a mudança pela qual estamos passando e vale se perguntar o que se ganha e o que se perde quando a IA passa a escrever colunas de opinião.

A curadoria, a revisão e a responsabilidade serão sempre dos autores que as assinam, mas o quanto da personalidade de cada um vai no texto é algo que depende de como o autor vai se valer das novas ferramentas.

Em 1949, o filósofo Gilbert Ryle popularizou o termo “fantasma na máquina” para criticar a dualidade cartesiana entre corpo e mente, na qual o corpo seria uma máquina e a mente um fantasma etéreo que a habita e controla.

Se a IA virar mesmo nossa ghostwriter, levando embora a atividade mental que é pensar enquanto se escreve, o resultado está posto: o fantasma será a máquina.

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