A importância da ciência básica

Coluna semanal de Ronaldo Lemos na Folha de São Paulo

publicado em

14 de julho de 2020

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São as perguntas fundamentais que acionam o motor da ciência

Esta coluna foi produzida especialmente para a campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência. Ao longo do mês de julho, colunistas cedem seus espaços para abordar temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios. Cedo o espaço a Rafael Chaves, líder do grupo de pesquisa em informação quântica do Instituto Internacional de Física (IIP-UFRN) em Natal.

Michael Faraday não titubeou quando o ministro das Finanças lhe perguntou sobre a aplicação de sua pesquisa sobre eletricidade. “Um dia o senhor poderá cobrar por ela.”

Até então, em pleno século 19, para o grande público, a eletricidade não passava de uma curiosidade capaz de deixar em pé o cabelo das moças ou assustar os incautos com um show de fagulhas. A resposta do físico e químico inglês não poderia ser mais profética.

É claro que o objetivo dele não era locupletar os cofres ingleses. O que o movia e a seus pares era a vontade de desvelar os mistérios da natureza. Ao longo desse processo, descobriram uma regra universal para descrever os fenômenos elétricos e magnéticos. Tudo porque alguém viu uma faísca e se perguntou: como assim? São as perguntas fundamentais que acionam o motor da ciência.

A história da “enigmática” mecânica quântica revela a importância da ciência básica. A teoria quântica foi a solução encontrada quando, na virada do século passado, os cientistas se confrontaram com o comportamento aparentemente paradoxal do mundo do muito pequeno.

Átomos e seus constituintes como prótons e elétrons não se comportam como somos levados a crer por nossas experiências corriqueiras. Se usamos a intuição e as leis que regem o mundo visível, acabamos por acreditar que um elétron pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, entre outras bizarrices.

Mais uma vez, a pergunta foi simples: por quê? E da resposta nasceram aplicações que geram até 30% do produto interno de países desenvolvidos. Sem a quântica, não haveria computadores, lasers, energia nuclear ou células solares.

​E isso é foi só o começo.

Em meados da década de 1980, cientistas começaram a se perguntar o que aconteceria se o próprio processamento da informação se tornasse quântico. Dessas divagações nasceu o campo da computação e informação quântica, sua segunda revolução.

Há 20 anos, quando ouvi falar disso, um computador quântico parecia ficção. Mas o ano passado, bem antes do esperado, o Google mostrou ao mundo um suposto computador quântico que seria capaz de cálculos que o maior supercomputador demoraria anos para realizar (vale dizer que a IBM contestou o sucesso do Google).

As promessas dessa nova área são inúmeras, desde modelagem molecular e descobertas de materiais e drogas até formas mais eficientes e seguras de se comunicar.

Na criptografia quântica, por exemplo, a menos que um hacker possa quebrar as leis da física, das duas uma: ele não conseguirá obter nenhuma informação ou, caso consiga, será imediatamente detectado.

Descoberta em meados da década de 1980, a criptografia quântica já é usada para garantir a segurança das eleições suíças desde 2007 e por bancos ao redor do mundo.

O caminho dos computadores quânticos, da criptografia quântica e de muitas outras descobertas ainda é longo e precisa do suporte da sociedade para seguir adiante. Sobretudo num momento como o que vivemos, em que o negacionismo científico, notícias falsas e desmonte da ciência brasileira parecem ser um projeto de governo.

Se pensarmos que há pouco mais de um século a varíola matava multidões e só tínhamos velas a nos iluminar, acredito não haver dúvidas do que devemos apoiar.

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