Luto dramático pelo fim dos dinossauros revela como jovens encaram o futuro

Coluna de Carlos Affonso Souza no Uol Tilt.

publicado em

6 de maio de 2026

categorias

{{ its_tabs[single_menu_active] }}

tema

A comoção nas redes com o episódio da Netflix sobre a extinção dos dinossauros virou um luto “seguro”, coletivo e catártico, que expõe a ansiedade dos jovens com o futuro

A série documental “Os Dinossauros”, da Netflix, produziu um efeito curioso. A partir da divulgação de seu último episódio, que mostra a extinção dos répteis que dominaram o mundo, as redes sociais foram tomadas por crises de choro, dramas e lamentações.

A juventude estava desolada com o fim dos dinossauros, ocorrido há cerca de 66 milhões de anos atrás.

As publicações prestavam homenagens aos antigos répteis, que “eram muito queridos”, especulavam sobre como eles “devem ter ficado assustados com o asteroide, tadinhos” e confessavam como “esses edits do TikTok estão acabando comigo”.

Em um desses edits, fotos dos dinossauros vendo o meteoro vão passando enquanto toca “Let Down”, do Radiohead.

Existe algo de estranho acontecendo na relação que os jovens estabelecem com o tempo. E isso vale tanto para o passado como para o futuro.

“Não se trata de nostalgia, até porque ninguém aqui viveu os últimos dias dos dinossauros. Mas chorar pelo seu fim só parece fazer remoto sentido quando o luto se torna seguro, performático e catártico.”

O luto pelos dinossauros é seguro, porque o seu fim já aconteceu faz tempo e nós sabemos o que veio depois.

Esse não é um luto que carrega consigo a sombra ameaçadora do imponderável. Ele ainda é auxiliado pela existência de narrativas, contadas em livros, filmes e séries, que ajudam a dar significado aos acontecimentos.

Esse conforto lembra o sucesso que podcasts dedicados a civilizações antigas (e a seus colapsos) fizeram durante a pandemia.

O que esses conteúdos ofereciam era a forma narrativa que o presente recusava: começo, meio e fim. Tudo embrulhado dentro de uma explicação coerente.

O luto é também performático porque é exercido de maneira coletiva nas redes sociais: virou uma trend.

Se dizer triste pelo fim dos dinossauros equivale a fazer a coreografia do momento ou publicar o meme da ocasião. Todos buscando “hitar” com o seu conteúdo, para assim “farmar aura” e fazer parte do grupo.

Se considerarmos, por outro lado, que o sentimento é genuíno para quem saiu postando seus lamentos jurássicos, fica a pergunta sobre qual seria a razão da tristeza. Aqui entra em cena o componente catártico desse luto: choramos pelo T-Rex ou por nós mesmos?

Saber por quem dobram os sinos nas redes sociais pode dizer mais sobre o futuro do que sobre o passado.

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi passou décadas tentando explicar a visão da humanidade sobre o porvir em tempos cada vez mais digitais. No livro Depois do Futuro, ele descreve a geração contemporânea como a primeira que não consegue imaginar o futuro como promessa.

As gerações anteriores discordavam sobre que futuro construir: capitalismo ou socialismo, modernidade ou tradição.

A geração atual, ao seu ver, simplesmente não acredita que haja futuro para construir —ou que ele valha o esforço.

Esse niilismo desemboca em muitos comportamentos problemáticos e abre a porta para visões de futuro assustadoras.

A Palantir, empresa norte-americana de tecnologia e segurança, deu mais um empurrão nesse debate ao publicar recentemente um manifesto, de autoria do seu CEO, Alex Karp, e do diretor de assuntos corporativos, Nicholas Zamiska. Segundo o documento, o futuro é um projeto de poder tecnológico, vigilância estatal e supremacia digital.

Karp trata os debates éticos sobre tecnologia militar como “teatrais” e as culturas que não acompanharem o ritmo como “disfuncionais e regressivas”. É o futuro como imposição, não como promessa.

A cruel ironia é que esses dois universos —o dos jovens em luto pelos dinossauros e dos executivos de big tech traçando o futuro— convergem em um mesmo ponto: o mundo está em transformação, a velocidade dos fatos esmagou o presente e o futuro será tomado à força.

Quando Dua Lipa lançou o seu disco Future Nostalgia (“Nostalgia do Futuro”), em 2020, a cantora britânica explicou que queria misturar o tom futurista da produção do álbum com a sonoridade de artistas como Blondie e Prince, que fizeram sucesso antes mesmo dela ter nascido.

Parece que estamos sempre resgatando um passado, ainda que ele não tenha sido o nosso, e buscando ressignificá-lo.

Isso nos dá ferramentas para ler o presente e nos preparar para o que vem pela frente.

O luto pelos dinossauros, nesse sentido, é um exercício mental sobre o fim que se mostra seguro, performático e catártico. Tudo ao mesmo tempo. Mas o que ele diz sobre o futuro?

Tem gente nas redes sociais que, fazendo um balanço do que a humanidade tem oferecido, acredita que “os dinossauros foram extintos por muito menos”.

Para esse time, a nostalgia do futuro é a saudade de um porvir mais otimista que foi cancelado pelo aquecimento global, pela ameaça da IA e a escalada dos conflitos regionais com impacto global.

Existe outra maneira de entender a nostalgia do futuro. Talvez o luto pelos dinossauros diga menos sobre o passado do que sobre o que estar por vir: é mais fácil chorar por um fim que já tem explicação do que enfrentar os que ainda não têm.

A era da IA vai substituir a era atômica, como quer o manifesto da Palantir? A pergunta já é uma forma de se colocar no futuro.

A nostalgia do futuro pode ser uma curiosa vontade de conhecer logo o que ainda não aconteceu —e termos uma história, quiçá boa, para contar.

Esse sentimento, como diria Neymar, enquanto espera disputar mais uma Copa, é a “saudade do que a gente não viveu ainda.”

autor

{{ pessoas.pessoaActive.title }}

×