Seu carro virou um divã

Coluna de Fabro Steibel no Zero Hora

publicado em

30 de setembro de 2020

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Uma das preocupações do isolamento social, a saúde mental dos brasileiros se deteriora. O acesso remoto à terapia pode envolver locais surpreendentes

Quem imaginaria que o carro, estacionado, seria tão importante para nossa saúde mental? Com a pandemia, cresce o número de pessoas que adotam o carro como um cômodo extra da casa. Seja para fazer terapia, para ver um filme ou só ficar um pouco sozinho, sobram casos de quem adotou o carro como espaço privado para cuidar da mente.

A saúde mental é um dos grandes desafios da pandemia. O medo da morte, a incerteza sobre o vírus, o impacto na economia, a troca de rotina, os períodos prolongados com as mesmas pessoas (inclusive nós mesmos) criam sintomas que demandam atenção. O Centro de Valorização pela Vida registrou aumento de 12% nos pedidos de ajuda no período, e a Faculdade de Medicina da USP já está mapeando o aumento de efeitos da “Onda COVID-19” na ansiedade e depressão.

A prática de terapia online já era reconhecida pelo Conselho Nacional de Psicologia desde 2017, mas a tendência era vermos a teleterapia como forma inferior de atendimento. Com a quarentena fomos obrigados a experimentar, e gradativamente estamos vendo que essa forma de telemedicina é uma alternativa real para o que antes fazíamos apenas presencialmente.

Startups como a Psicologia Viva já captaram milhões em investimento esse ano, só com apoio a serviços de teleterapia. Startups de telemedicina no mundo todo foram abocanhadas por gigantes do mercado de saúde, de seguradoras a hospitais. O Hospital Israelita Albert Einstein, sozinho, subiu o número de consultas digitais de 4 para 50 mil ao mês, uma parte desses ligadas diretamente à saúde mental.

Mas como fazer terapia com a casa cheia? Eis que entra o carro na jogada. Espaço com isolamento acústico moderado, e que pode ser deslocado se necessário, a prática da terapia no automóvel torna-se uma necessidade. Em campus de universidade, como a UFSC, o reitor aprovou liberar wi-fi no estacionamentos para quem quiser ir de carro fazer terapia, trabalhar, ou simplesmente praticar isolamento mental.

Faz tempo que o carro é pensado como espaço privativo. Escolhemos o carro a partir do espaço para batom, o porta-copos, conforto dos bancos e porta-malas (além, é claro, do motor, preço e cor). Usado como divã, adaptamos esses acessórios para nosso conforto. Alguns já arriscam fazer terapia no banheiro, outros têm a sorte de ter um cômodo privativo, mas o carro – desligado- é uma alternativa crescente para quem quer falar regularmente com o terapeuta em tempos de COVID.

O movimento é global, e a “terapia no carro” pode vir para ficar. É ideal? Não é, mas a tendência, já iniciada, pode gerar bons frutos. Estacionamentos hoje vazios podem servir de coworking, parques podem servir à telemedicina, e hotéis alugados por hora são uma necessidade (para além do uso a dois). Hoje pensamos o carro como algo em movimento, que nos leva daqui para lá. Mas se refletirmos um pouco, o carro pode ser ainda mais que isso.

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