A era de ouro dos podcasts

Coluna semanal do Ronaldo Lemos publicada na Folha de São Paulo.

publicado em

1 de outubro de 2019

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Da mesma forma como muita gente hoje pergunta “quais séries você vê?”, tornou-se comum perguntar também “quais podcasts você escuta?”.

Vivemos a era de ouro dos podcasts, que precisaram de quase 15 anos para se popularizar de verdade.

A origem do formato podcast remonta a práticas que existem desde os anos 80. No entanto, foi a partir da invenção do iPod da Apple que o formato contemporâneo foi forjado (daí o termo “podcast”).

Muita gente credita ao ator norte-americano Adam Curry a disseminação do formato ainda em 2004, a ponto dele ter ganhado o apelido de “podfather”. Curry foi uma das primeiras celebridades a se projetar com um podcast. Apesar disso, o salto do formato para o mainstream aconteceu de fato nos últimos três anos.

O fenômeno tomou conta também do Brasil. Também aqui a ascensão dos podcasts aconteceu primeiro como uma cultura amadora; logo depois, com a entrada de grupos de mídia apostando no formato, como é o caso do ótimo podcast Café da Manhã da Folha e tantos outros.

Uma das razões do sucesso é justamente a diversidade temática. Há podcasts sobre serial killers (My Favorite Murder), ficção científica (Within the Wires), tecnologia (Bit-by-Bit), teorias da conspiração (The Truth is Somewhere), psicodelia (Expanding Mind), música pop coreana (K-papo) e muitos mais. Cada meganicho encontra (ou produz) seu próprio podcast.

A expansão dos podcasts é sintoma de uma transformação maior. Por muito tempo se acreditou que a internet iria matar a mídia “tradicional”, como a televisão e o rádio. Não só isso não aconteceu como foi um fenômeno inverso que passou a ocorrer.

A internet cada vez mais se transforma em rádio e em televisão. É claro que a interatividade e não-linearidade permanecem. Mas cada vez mais os conteúdos mais valiosos economicamente na rede emulam aqueles da mídia tradicional.

Os vídeos de gato caseiros permanecem, mas boa parte do dinheiro (e da atenção) flui para séries de alto valor de produção que estreiam primeiro online. E no caso de podcasts, programas bem produzidos, com qualidade de áudio impecável, roteiros cuidadosamente escritos, conduzidos com frequência por celebridades.

Outra razão para o sucesso dos podcasts é uma fadiga da visão com relação à internet. Para olhar algo com atenção no celular é preciso foco e, com isso, uma perda de atenção com relação ao demais sentidos.

Por essa razão é tão perigoso usar o celular e dirigir. É preciso ficar trocando o foco da atenção do aparelho para a rua o tempo todo. Não por acaso, só nos EUA mais de 4.500 mortes ocorreram por causa disso em 2018.

Já a audição é menos demandante com relação aos demais sentidos. É possível ouvir um podcast enquanto se dirige, durante exercícios, tarefas domésticas e assim por diante.

Mais do que isso, podcasts se integram bem a assistentes virtuais e speakers inteligentes, que são acionados por comando de voz. Em princípio pode parecer que o podcast é um exercício de desconexão.

Mas se pensarmos bem, é só mais uma forma da internet e da informação ocuparem novos espaços e tempos antes desocupados.

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