Balanço do Fórum Econômico Mundial

Coluna semanal do Ronaldo Lemos publicada na Folha de São Paulo.

publicado em

28 de janeiro de 2020

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Terminou na última sexta (24) o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Estive lá e falei em três painéis relacionados a tecnologia. O fórum é um bom termômetro das pautas globais e consegue mapear os assuntos que estarão quentes ao longo do ano.

Uma consideração geral é que o Brasil agradou na parte econômica, mas desapontou em praticamente todas as outras áreas, incluindo sustentabilidade, ciência e tecnologia. 

É como se o país tivesse se tornado monotemático, indo na contramão do próprio lema do fórum este ano, que foi “stakeholder capitalism” (capitalismo de partes interessadas) —princípio de que empresas devem criar valor não só para acionistas, mas também para seus consumidores, empregados, fornecedores e comunidades.

A ideia é um contraponto à máxima do economista Milton Friedman que gostava de dizer nos anos 1970 que “the business of business is business” (o negócio das empresas é o negócio). Em outras palavras, que nada mais importava a uma empresa a não ser ganhar dinheiro da forma mais eficaz possível, sem qualquer consideração externa.

Nesse sentido, a participação do Brasil foi muito mais alinhada à ideia de Friedman do que ao capitalismo de interesses propugnado pelo fórum. Em suma, nosso país soou velho.

Ficamos de fora, por exemplo, das grandes discussões sobre inovação e tecnologia. Países como China e Índia tiveram muito mais protagonismo em temas como inteligência artificial e quarta revolução industrial, um dos eixos mais importantes deste ano.

Dois painéis em especial me chamaram a atenção. Um deles, tratando do conceito de “supremacia quântica”.

Em 2019, o Google anunciou ter conseguido provar pela primeira vez a existência da computação quântica. Realizou um cálculo que não pode ser feito por nenhum computador atual. Isso representaria o momento em que essa nova tecnologia estaria definitivamente entre nós, ainda que suas aplicações hoje não sejam úteis.

A conquista do Google foi contestada pela IBM, que alegou que há computadores atuais que 
poderiam ter feito o mesmo cálculo em um tempo aceitável. O importante, porém, é que quem dominar a computação quântica terá vantagem competitiva importante (daí o termo “supremacia”). Pensar sobre isso é tarefa para qualquer país que queira ser um ator global.

O outro painel que me chamou a atenção, do qual participei, teve o nome “quando humanos se tornam ciborgues”.

O objetivo foi discutir interfaces entre máquinas e seres humanos e suas repercussões. Apesar do tema parecer futurista, a preocupação é atual. Um dos pontos que levantei é que, na medida em que o cérebro humano se conectar a máquinas, isso levará a uma coleta permanente de dados. Mais do que isso, abrirá o caminho para entender o funcionamento do cérebro de forma mais profunda.

Isso traz riscos, inclusive de manipulação política, bem maiores do que hoje. Alguém lembrou: “Temos um cérebro forjado no Paleolítico, temos instituições forjadas na Idade Média e temos tecnologias futuristas”. O contraste entre esses três ainda vai gerar muitas questões de difícil solução.

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Já erapesquisar remédios só por meio de testes clínicos

Já édesenvolver remédios por meio de dados coletados digitalmente de um grande segmento populacional

Já vemdesenvolver remédios com inteligência artificial

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