É preciso plano de inteligência artificial

Coluna semanal do Ronaldo Lemos publicada na Folha de São Paulo.

publicado em

5 de fevereiro de 2019

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O Brasil precisa de um plano nacional de inteligência artificial. Nenhum país no mundo de hoje pode se dar ao luxo de não fazer nada com relação a essa tecnologia. Os sinais que apontam para essa necessidade estão em toda parte.

A começar pela irresponsabilidade de Brumadinho. Se ainda não tinha ficado claro que o modelo de desenvolvimento do país está esgotado, Brumadinho desenhou isso no relevo de Minas Gerais da forma mais trágica possível. É preciso construir um novo modelo de desenvolvimento para o país que seja intensivo em capital intelectual e capaz de desenvolver produtos e serviços de maior complexidade econômica.

Folha mostrou na semana passada estudo da UnB (Universidade de Brasília) que prevê que 54% dos empregos formais correm o risco de desaparecer no Brasil até 2026.

O estudo foi realizado aplicando em nosso país a metodologia desenvolvida por Carl Frey e Michael Osborne, pesquisadores de Oxford.

Nas contas deles, os Estados Unidos perderão 47% dos empregos. Países pobres perderão mais.

Inteligência artificial não é somente um “setor” da economia. Ao contrário, essa tecnologia deve ser vista hoje como parte da infraestrutura de qualquer país, pois é capaz de gerar externalidades positivas para todas as atividades produtivas, tornando-as mais competitivas e eficientes.

Isso sem falar na questão de segurança nacional: países que não dominam inteligência artificial ficam cada vez mais para trás no terreno geopolítico.

Por isso é fundamental o Brasil acordar para essa necessidade. Já estamos atrasados. Hoje são vários os países do mundo que já têm planos nacionais de inteligência artificial. Dois deles já são notórios: China e Estados Unidos. Outros incluem Canadá, França, Reino Unido, Singapura e assim por diante.

Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica responder aos desafios dessa tecnologia.

Mas o que deve conter um plano nacional de inteligência artificial? Ao menos quatro coisas.

A primeira é um programa amplo de capacitação para lidar com inteligência artificial. É preciso formar uma geração de pessoas capazes de pensar e implementar projetos nesse campo. Esse esforço vai da escola ao ensino superior.

O segundo é institucionalizar essa política, em parceria com o setor privado e a comunidade científica. O Reino

Unido, por exemplo, criou agências de inovação para promover a integração entre os diversos setores, de forma ética e segura. Um exemplo é o Centre For Data Ethics and Innovation.

O terceiro ponto é criar uma política nacional de gestão de dados, especialmente dados públicos. A matéria-prima que move a inteligência artificial são volumes avassaladores de dados. Nesse sentido, trabalhar na interoperabilidade das bases de dados, na criação de “data lakes” públicos e em uma estratégia para o tema é essencial. Tudo isso sem deixar de lado segurança e privacidade.

Por fim, é preciso trabalhar em “reskilling”, isto é, preparar o contingente de pessoas que podem perder seu emprego para novas funções.

Estamos vivendo uma primavera da inteligência artificial. Que irá se converter em inverno para todos os países despreparados para lidar com o tema.

READER

Já era Não fazer nada com relação a inteligência artificial

Já é Promover “reciclagem profissional”

Já vem Promover “reskilling”

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