Inovação e competição na China

Ronaldo Lemos escreve para a Folha de São Paulo

publicado em

27 de maio de 2019

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Na semana passada, a China recebeu a visita do vice-presidente Hamilton Mourão. Por coincidência, estou também no país, fazendo uma pesquisa sobre inovação e empreendedorismo.

Uma primeira impressão é que a China se transformou em um gigantesco laboratório de experimentação. Não existe só uma China, mas várias. Cada uma adotando um modelo de organizar e inovar diferente.

O que dá certo segue em frente, podendo ser escalonado em outros lugares. O que dá errado é descontinuado, mas não sem antes gerar lições sobre o que não funcionou.

Em outras palavras, aquilo que se recomenda que as empresas startups façam —testar modelos— a China tem feito em escala nacional. Ao mesmo tempo, ser empreendedor na China não é fácil. A competição local é acirrada e implacável. Como consequência, a vida das startups chinesas de tranquila não tem nada.

Ao visitar uma plantação de chá próxima à cidade de Hangzhou, fica claro como a digitalização mudou até práticas milenares. A filha de uma das famílias produtoras locais acabou se mudando para a Austrália, desencantada com as perspectivas do cultivo do chá.

No entanto, em razão do processo de digitalização do país, com celulares e conexão barata em toda parte, enxergou uma oportunidade. E se fosse possível criar uma plataforma digital para vender o chá cultivado localmente para outras localidades?

Foi exatamente o que ela fez. Mudou-se de volta e transformou um cultivo da família, que dependia de mercados limitados para sobreviver, em uma atividade capaz de escoar sua produção para qualquer lugar.

O resultado veio rápido. Em quatro anos, a região saltou de um faturamento de US$ 500 mil anuais para US$ 20 milhões. Mesmo quem mora em Pequim, a 1.400 quilômetros de Hangzhou, pode comprar o chá da região (chamado Longjing) e recebê-lo em casa em 24 horas.

Esse exemplo ilustra um dos segredos do país: criar plataformas digitais e físicas que funcionam como infraestrutura para o comércio, abrangendo as cidades grandes e as pequenas, além das regiões rurais. Cada uma com capacidades produtivas distintas. No entanto, quando conjugadas em rede, tornam-se complementares. E mais: quando pequenos comerciantes conseguem se integrar a redes de comércio nacionais, isso muda tudo.

Vale entrar em um mapa na internet e dar um zoom para visualizar a quantidade de estradas e sobretudo de ferrovias da China. A imagem é impressionante. Esse pequeno experimento mostra por que os chineses ficam espantados ao saber que no Brasil há poucas ferrovias e praticamente nenhuma para transportar pessoas. Sabem que o Brasil é grande e não entendem por que não temos trens integrando as cidades brasileiras.

Só de trem-bala há hoje 29 mil quilômetros de linhas férreas na China, ligando 30 das 33 províncias. Os trens mais novos são capazes de viajar a 340 km/h. Uma viagem de São Paulo a Salvador levaria pouco mais de cinco horas e meia se uma linha dessas existisse no Brasil.

O exemplo chinês evidencia como inovação e infraestrutura (inclusive informacional e educacional) caminham lado a lado. No mundo em que vivemos, sem cuidar desses dois aspectos, é impossível almejar o desenvolvimento.

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