Internet dos Corpos, ídolos artificiais e mais: o que pode bombar em 2020

Coluna semanal do Carlos Affonso publicada no UOL.

publicado em

7 de janeiro de 2020

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O último ano da década é sempre um intruso. É como um aluno mais novo transferido para uma turma mais velha. É como o Alien do primeiro filme – o oitavo passageiro – que usa os outros sete só para o proveito da sua espécie.

2020 não deveria pertencer aos anos 10, mas por força do calendário gregoriano aqui está ele. Resta saber o que esse clandestino vai aprontar. Será que ele vai seguir as tendências lançadas nos últimos anos? Ou será que 2020 vai ser um ano de ruptura?

No campo da tecnologia (e em especial no da tecnologia da informação), o final da década deixou claro como esse componente de nossas vidas não pode ser ignorado. Quem estava nos fóruns de internet do começo dos anos 10, se divertindo com os memes e com a trolagem generalizada, dificilmente imaginaria que esse ambiente e essa linguagem se converteriam em poderosos instrumentos políticos, sendo adotados por candidatos e governantes.

A ascensão dos smartphones, colocando o acesso à internet no bolso das pessoas, é outra marca incontestável dessa década. Além de transformar o tempo ocioso na fila do banco, os celulares conectados transformaram a nossa rotina, o nosso comportamento e as nossas expectativas. Esperamos que o outro esteja sempre conectado, a uma mensagem de distância.

O que podemos esperar então desse último episódio dos anos 10 no que diz respeito a previsões e tendências tecnológicas? Para 2019 nós havíamos mencionado a escalada comercial do reconhecimento facial e a consolidação dos podcasts. Será que a gente acerta mais alguma dessa vez?

1. Vamos usar redes sociais para pagar ou transferir dinheiro

Enquanto na China o WeChat Pay conseguiu com êxito unir as funcionalidades de rede social e meio de pagamento, no Ocidente não existe ainda um super app que junte as duas funções. Recentemente o Facebook lançou o Facebook Pay e começou a testar meios de pagamento via WhatsApp na Índia. Se for mesmo lançado no Brasil – confirmando os rumores – o WhatsApp Pay teria tudo para decolar dada a enorme base instalada de usuários no país.

Essa previsão segue os passos da retirada de importantes empresas de pagamento do consórcio reunido para o lançamento da Libra, a moeda virtual anunciada pelo Facebook. Se a Libra vem encontrando obstáculos regulatórios que demandam negociações, a implementação de meios de pagamento em aplicativos populares parece surgir como uma opção natural, viabilizando mais rapidamente uma funcionalidade financeira para seus usuários.

Pode ir se acostumando com a ideia de juntar uma parte da sua vida financeira com algum aplicativo popular de rede social ou de mensagens instantânea.

2. A manipulação de vídeos vai levar as fake news para um novo patamar

Se tem gente caindo nas armadilhas da desinformação através de fotos ou simples mensagens de texto, imagine quando a mentira vier “comprovada” com um vídeo? O fenômeno das deepfakes – como vídeos manipulados para inserir o rosto de uma pessoa no corpo de outra – não é exatamente uma novidade. Basta lembrar a confusão com o vídeo do João Doria nas vésperas da eleição para o governo de São Paulo.

O que muda em 2020 é a popularização dos meios para manipulação de vídeos, com a redução do poder computacional necessário para tanto e o sucesso de aplicativos que tornam a edição de vídeos cada vez mais simples. Podemos esperar que vídeos manipulados vão aparecer nas eleições municipais, colocando os candidatos em maus lençóis para comprovar que a evidência audiovisual é, na verdade, uma grande fraude.

3. Quem precisa da Internet das Coisas quando se tem a Internet dos Corpos?

Figurinha repetida em todas as previsões dos últimos anos, a Internet das Coisas vem paulatinamente ganhando espaço na indústria e no comércio. A sua implementação para valer requer uma conexão em níveis que o Brasil ainda está longe de disponibilizar em larga escala, ainda mais com todas as idas e vindas sobre o 5G.

Se por um lado as coisas estão cada vez mais conectadas, os nossos corpos não ficam atrás. É comum pensarmos no corpo como a última fronteira da individualidade. Meu corpo, minhas regras. Mas o que acontece quando uma parte importante dos avanços tecnológicos parece ter como objetivo exatamente mapear, tratar e disponibilizar dados que são gerados pelo nosso corpo?

Não estamos falando de empresas oferecendo implantes de chips subcutâneos aos seus empregados para acessar funcionalidades da companhia. A simples ideia de que o empregador teria um dispositivo dentro do corpo do funcionário parece repugnante para muita gente. Mas pense bem: quantos aplicativos já não medem os dados gerados pelo seu corpo?

A partir de aplicativos dedicados a atividades físicas, além de relógios e pulseiras inteligentes, só faz crescer o número de dados gerados pelo nosso corpo que são tratados por terceiros. O que pode ser feito com isso? Pergunte ao seu plano de saúde. Em 2020 devemos começar a dar mais atenção à Internet dos Corpos.

4. Estamos prontos para idolatrar um artista virtual?

Acabou de sair o line up do Coachella desse ano. Enquanto os brasileiros discutem a posição da Anitta e Pabllo Vittar no cartaz do festival, chama atenção a presença de uma outra artista que faz bastante sucesso na internet: a Hatsune Miku. A cantora é, na verdade, o produto de um sintetizador de voz, que uniu diferentes amostras vocais para criar uma voz original.

Para que a coisa não ficasse tão abstrata, foi criada uma personagem para a voz, caracterizada como uma menina oriental de 16 anos com duas longas marias-chiquinhas azul-piscina. Hatsune ganhou seu próprio mangá e saiu em turnê. Nos shows, a imagem projetada da personagem é acompanhada por uma banda. Agora é hora da estrela brilhar em um dos maiores festivais do mundo.

A participação de Hatsune Miku no Coachella parece confirmar a previsão de que estamos cada vez mais próximos do momento em que não vamos mais saber se a música que estamos ouvindo está sendo cantada por uma pessoa real ou por um programa. Será que em 2020 teremos um artista virtual criado no Brasil ou a ideia de um ídolo artificial ainda nos parece muito estranha?

5. Este ano vai mandar os super-ricos para o espaço

Em 2011, a Nasa aposentou os ônibus espaciais, passando a depender dos russos para levar seus astronautas para a Estação Espacial Internacional. Parece que isso pode mudar em 2020 com o desenvolvimento de novos projetos americanos vindos do setor privado. Tanto a Boeing como a SpaceX têm importantes testes marcados para esse ano envolvendo voos tripulados no espaço.

Ao mesmo tempo, voos suborbitais com tripulantes pagantes podem começar a sair do papel com iniciativas como a Blue Origin, de Jeff Bezos, e a Virgin Galactic. Tudo indica que 2020 será um ano fundamental para que possamos entender o futuro do turismo espacial.

Se você não quiser viver em um mundo com artista virtual, internet corporal e deepfake eleitoral, a solução vai ser mesmo fazer turismo espacial. Tudo a depender, dado os custos da viagem, do saldo do seu cheque especial.

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