O risco do reconhecimento facial

Por Fabro Steibel

publicado em

9 de janeiro de 2020

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É cada vez mais comum governos abraçarem o reconhecimento facial para combater o crime. A ideia é promissora: automatizar a busca por pessoas que cometem ofensas, otimizando o envio de policiais para fazer a averiguação. Cidades pelo Brasil já fizeram mais de 100 prisões usando a tecnologia, algumas dezenas só no Rio de Janeiro, o que mostra o potencial da ideia. Ao mesmo tempo, há cidades banindo o reconhecimento até que se entenda melhor seus efeitos colaterais. Curiosamente, há uma tecnologia de mais de 10 anos que pode nos ajudar a entender os riscos envolvidos: o reconhecimento de veículos.

Reconhecer placas de carros é algo semelhante a reconhecer faces pela rua: uma câmera de vídeo filma continuamente enquanto um algoritmo lê a imagem captada, quadro a quadro, identificando objetos que passam por ali. Quando algo de errado acontece, a tecnologia substitui o homem: a placa é marcada como infratora, uma busca acontece nas bases do Detran para identificar o motorista e enviar a multa. O próximo passo é com você: pagar ou recorrer da infração.

O que poderia dar errado com algo tão simples? Muita coisa. Descobrimos por exemplo a indústria de placas clonadas: criminosos que ganham dinheiro fazendo dublês de seu carro, seja para maquiar algo roubado, ou simplesmente para evitar multas. Quem já teve problema com isso sabe a dor de cabeça que é. 

Embora não seja fácil clonar sua face, um paralelo entre os problemas existe. Placas de carro seguem padrão ABNT e convenções internacionais, por isso elas são tão eficientes para leitura automatizada. Já nossa face segue padrão nenhum: ela está ali, no meio da multidão. Para lidar com isso, o reconhecimento facial trabalha com um percentual de acerto. E esse percentual é potencialmente baixo, ainda mais em casos não controlados como na rua. Na prática, embora não seja possível clonar sua face, o computador encontrar um monte de clones seus por aí. E o que os pardais eletrônicos nos ensinam sobre isso? Se no começo o uso da tecnologia é controlado, rapidamente surgem usos com pouco controle.

Outro ensinamento do reconhecimento de veículos é o uso de dados pelo setor privado. Nos Estados Unidos existem bases de dados de mais de 10 anos sobre a circulação de veículos. É como se todas ruas em que seu carro passou – hospitais, guetos, bancos, o que for – estivesse registrado, e a venda. Tanto que existem empresas de seguro, detetives e até namorados pagando para ter acesso a esses dados, mesmo sem você saber. O uso é potencialmente ilegal, mas como controlar? E sem controle, podem haver clones de você influenciando seu empréstimo, seu visto, ou até mesmo sua relação.

A verdade é que não existe hoje uma forma segura de usar o reconhecimento facial, exceto em casos controlados. A tecnologia é fantástica, precisa e deve avançar. Mas devemos aprender o que pode dar errado. Isso implica, necessariamente, evitar o mito da tecnologia milagrosa, e aceitar que devemos seguir com calma.

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