Quem ganha com a sua perda de tempo na internet?

Coluna semanal do Carlos Affonso publicada no UOL.

publicado em

2 de maio de 2019

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Quando os arranha-céus começaram a subir em Nova York, após a Segunda Guerra, as pessoas começaram a reclamar do tempo de espera pelos elevadores. Contam que a administração de um dos edifícios tentou todas as medidas técnicas para acelerar a velocidade dos elevadores e nada feito.

Então um psicólogo, que trabalhava no prédio, pediu permissão para fazer um experimento. Ele instalou espelhos no hall onde as pessoas esperavam e subitamente as reclamações pararam. Teve até gente que parabenizou a administração do edifício por ter consertado os elevadores. O tempo de espera continuava o mesmo. O que havia mudado era a percepção das pessoas sobre a passagem do tempo, já que agora elas tinham uma distração.

As últimas décadas aceleraram a comunicação humana a níveis de quase instantaneidade. Com isso, estamos desaprendendo a esperar. Antigamente se aguardava por uma carta ou pelo horário do programa na televisão. Hoje em dia as mensagens chegam ao seu destino logo após o seu envio e os filmes e séries podem ser vistos a qualquer momento.

Parece que a Internet, ao conectar a todos de forma cada vez mais veloz, tirou o tempo e o espaço da equação. Vista dessa forma, ela parece ter vindo para colocar um fim na espera. Até mesmo a evolução da rede parece caminhar nessa direção. Aos poucos, vai ficando no passado o tempo em que se esperava uma noite toda para baixar um filme. Hoje os sites de streaming oferecem acesso ao conteúdo imediatamente.

Mas a Internet não conseguiu eliminar por completo a dinâmica da espera. Que digam as filas de espera (virtuais e físicas) para comprar ingresso para os shows da Sandy & Junior e do BTS. Se bem que até nisso a tecnologia resolveu se imiscuir com apps que permitem a contratação de pessoas para esperar na fila por você.

Aqui aparece um outro elemento importante para entender o futuro da espera: como o tempo, e a sua disponibilidade, é um reflexo do poder. As 24 horas que você tem todos os dias não são as mesmas da Beyoncé. A quantidade parece a mesma, mas o que pode ser feito com esse tempo (a sua qualidade) é afetada por uma série de fatores. O tempo não é um bem igualmente distribuído na sociedade.

O ditado que diz que tempo é dinheiro coloca um preço, que pagamos todos os dias, na passagem das horas. Com a eliminação da espera em muitas das atividades (especialmente as relacionadas à comunicação e novas mídias), a pressão para que se possa fazer mais só aumenta. Consequentemente, qualquer momento de espera passa a ser um sufoco.

Dois efeitos aparecem nesse cenário. O primeiro é o sentimento inabalável de injustiça quando alguém, de forma desrespeitosa, faz você esperar mais do que deveria. Isso vale para o serviço de atendimento em repartições públicas e para o DJ Steve Aoki, flagrado furando a fila do hambúrguer vegetariano no Loolapaloza. Em ambos os casos existe um jogo de poder: alguém está querendo dizer que o tempo dele vale mais e que você pode esperar. Longe de mim querer gerar um climão no seu namoro ou casamento, mas já parou para pensar quem nessa relação faz sempre o outro esperar? Será que isso não demonstra que, na avaliação de quem espera, o seu tempo vale menos do que o outro?

O segundo efeito da transformação da espera em algo insuportável é justamente a exploração econômica desse tempo perdido. Jogos rápidos para o celular, como Candy Crush, visam a ocupar todo o seu tempo de espera (e além). Aplicativos de mensagem instantânea permitem que você se mantenha conectado mesmo enquanto aguarda atendimento. Existe uma verdadeira economia da espera.

A economia da espera

Em tempos de big data, no qual toda empresa é, no final das contas, uma empresa de dados, quanto mais tempo a pessoa passar usando o aplicativo melhor. O que importa é coletar cada vez mais informações que possam gerar um perfil detalhado do usuário.

Existem várias formas de fazer com que o tempo de tédio ou de espera se prolongue em uma rede social. O mais óbvio é a barra de rolagem infinita. Você já chegou no final do seu feed de notícias? Algumas redes não colocam um ponto final de propósito. Quanto mais conteúdo você visualizar maiores as chances de você clicar, compartilhar ou de qualquer modo alimentar a plataforma.

No caso dos jogos existem alguns golpes bem conhecidos para reter a atenção do jogador. O primeiro são os chamados gachas, prêmios-surpresa que são entregues ao se entrar no jogo todo dia. Como você nunca sabe o que vai ganhar, o efeito surpresa faz você querer voltar. É como uma loteria na palma da sua mão, recompensando diariamente a sua fidelidade.

Outro jeitinho para reter a sua atenção é a geração de uma escassez artificial de disponibilidade do game. É muito comum que o jogador só tenha um número determinado de tentativas que, quando esgotadas, fazem com que ele aguarde um tempo para poder voltar a jogar.

Ah, mas você quer continuar? Basta pagar para receber mais um lote de estrelas, corações ou qualquer símbolo que traduza a existência de novas tentativas. Sempre achei curioso que a indústria dos games chame essas tentativas de “vida”. Existe algo essencialmente errado com a expressão “comprar mais vidas”.

O professor Jason Farman, da Universidade de Maryland, no seu recém-lançado livro “Delayed Response”, argumenta que a engenharia da espera – e as suas peculiares dinâmicas de poder – geralmente passam desapercebidas. Mas uma vez que você passa a prestar atenção nelas, você nunca mais vai esperar como antes.

Ao perceber que existe alguém ganhando com o nosso tempo, passamos a valorizar mais o que fazemos com ele e a refletir sobre como vivemos em tempos cada vez mais acelerados. Agora que estamos todos tão facilmente e instantaneamente conectados, fica a pergunta: era isso que você esperava?