Somos todos parte de fóruns da web

Coluna semanal do Ronaldo Lemos publicada na Folha de São Paulo.

publicado em

19 de março de 2019

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Em 2009 a revista Time fez uma votação na internet para escolher as cem pessoas mais influentes do mundo. No topo da lista apareceu o garoto chamado moot, fundador de um desses fóruns anônimos da internet, do tipo que está em evidência por serem frequentados pelos assassinos dos massacres de Suzano (SP) e de Christchurch na Nova Zelândia.

Na época, a eleição do garoto causou estranhamento —ele era virtualmente desconhecido do público em geral. Mesmo assim, obteve 16 milhões de votos.

Mais estranhamento estava por vir. Pegando a primeira letra dos nomes dos 21 primeiros colocados da lista da revista Time, formava-se a frase “MARBLE CAKE ALSO THE GAME”.

Tanto “marble cake” como “the game” eram memes-piadas do fórum anônimo criado por moot. Em outras palavras, não só eleição do garoto havia sido manipulada, mas também a dos 21 primeiros colocados da lista de “pessoa do ano” da revista eram em si uma piada de larga escala produzida coletivamente.

Esse episódio mostrou com clareza o poder da ação coordenada de pessoas anônimas por meio desses fóruns.

Dez anos se passaram, e os fóruns cuja atuação se circunscrevia ao underground da internet são agora uma das forças culturais centrais do mundo. A escritora Angela Nagle defende que são a plataforma de lançamento do extremismo contemporâneo e das “guerras culturais” que influenciaram a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Essa tática de atuação, desenvolvida por grupos de adolescentes e jovens adultos com o objetivo de criar piadas coletivas, tornou-se hoje ferramenta geopolítica.

O mesmo modelo de atuação do grupo chamado “Anonymous” —que emergiu desses fóruns e passou a desempenhar um protagonismo cada vez maior nos EUA até ser enfraquecido pelo FBI— foi então replicado por Estados-Nacionais e grupos organizados.

A brincadeira de crianças ganhou escala, apoio e impacto internacional.

Hoje, mais do que nunca, esses fóruns funcionam como laboratório de criação de linguagem radicalizada, que depois se espalham pela internet “normal”, como o Twitter e o Facebook.

Vários dos conteúdos que são disseminados no Brasil por Whatsapp, de memes políticos a cenas de violência, circulam primeiro nos fóruns anônimos e depois se espalham para milhões de pessoas. É como se fôssemos todos, indiretamente, membros desses fóruns.

Isso criou um novo tipo de cultura, altamente codificada, que exerce um potencial de atração intenso.

Adolescentes que ambicionam por uma vida melhor podem se radicalizar ao se tornarem parte dessa cultura. E com isso, serem auxiliados a cometer atrocidades, que servem então de espetáculo para outros anônimos.

Em 2009, ao escrever sobre esses fóruns aqui na Folha, disse o seguinte: “existe uma força coletiva surgindo do underground da rede. Algumas pessoas acham que é uma forma radical de liberdade de expressão com esteroides. Vejo o fenômeno com desconfiança, acho que pode ser o indício de um ovo da serpente, ruim para todo o mundo no longo prazo”.

O ovo chocou. E uma longa sombra hoje encobre toda a internet.

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